
Vacina brasileira contra dependência de nicotina tem resultados promissores em animais
Pesquisa pretende impedir que a nicotina chegue ao cérebro; testes em humanos podem começar em até dois anos
Uma vacina brasileira em desenvolvimento pode abrir um novo caminho para quem tenta abandonar o cigarro. Pesquisadores do Laboratório Cristália trabalham em uma vacina antinicotina destinada principalmente a reduzir um dos maiores problemas enfrentados por fumantes que tentam parar: a recaída.
A proposta é fazer o sistema imunológico produzir anticorpos capazes de capturar a nicotina ainda no sangue. Dessa forma, a substância teria dificuldade para chegar ao cérebro e provocar a liberação de dopamina e a sensação de prazer que ajuda a alimentar a dependência.
Resultados animadores, mas ainda iniciais
Até agora, a vacina foi testada somente em animais. Nos experimentos, animais dependentes de nicotina receberam três doses, uma por mês. Segundo a pesquisadora Gisele Zapata-Sudo, da UFRJ, todos os animais imunizados desenvolveram anticorpos — 100% de soroconversão — e foram observadas melhoras nas alterações comportamentais relacionadas à dependência.
Isso não significa, porém, que a vacina tenha eficácia comprovada de 100% contra o tabagismo. Ainda faltam etapas pré-clínicas de segurança e eficácia antes dos estudos com pessoas.
O Cristália estima que, se o desenvolvimento avançar como esperado, os primeiros testes em seres humanos poderão começar em até dois anos. Não existe ainda previsão segura de quando — ou mesmo se — a vacina chegará ao mercado.
Para quem já tentou parar
Para este jornalista, a pauta tem também uma dimensão pessoal. Sou fumante e já tentei diferentes maneiras de abandonar o cigarro, sem conseguir até hoje. E não estou sozinho nessa dificuldade.
Entre os tratamentos atualmente utilizados estão a reposição de nicotina, com adesivos e gomas; medicamentos como a bupropiona; acompanhamento médico e psicológico; e abordagens comportamentais para enfrentar a dependência e prevenir recaídas.
É justamente na recaída que a nova vacina pretende atuar: não substituindo esses tratamentos, mas tentando evitar que, ao voltar a fumar, a nicotina produza no cérebro a mesma recompensa que alimenta a dependência. O próprio Cristália ressalta que a vacina deverá ser um complemento ao tratamento, caso sua eficácia e segurança sejam confirmadas.
A cautela é necessária. A ideia de produzir vacinas contra a nicotina já foi testada anteriormente no exterior. A NicVAX, por exemplo, chegou à fase 3 de estudos em humanos, mas não apresentou eficácia superior ao placebo em larga escala.

A diferença agora está na tecnologia desenvolvida no Brasil e nos primeiros resultados obtidos. Se ela conseguirá superar os obstáculos encontrados pelas tentativas anteriores, somente as próximas etapas da pesquisa poderão responder.




