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O Brasil movido por entregas: como é a vida do entregador de aplicativos

De pacotes do comércio eletrônico a bebidas, ração e compras do dia a dia, plataformas criaram um novo mercado de trabalho nas cidades.

Você escolhe um produto, toca na tela do celular, paga e espera.

Às vezes, nem espera muito. Horas depois ou no dia seguinte, uma moto, um carro ou uma pequena van para diante de sua casa. O motorista desce, procura o pacote, confere o endereço e faz a entrega. Para o consumidor, aquele é o último minuto de uma compra. Para quem está ao volante, pode ser apenas mais uma entre dezenas de paradas naquele dia.

O crescimento do comércio eletrônico e dos serviços contratados pela internet criou no Brasil um mercado de trabalho que já faz parte da paisagem das cidades: o dos entregadores ligados a plataformas digitais e operações de logística.

Quase 2 milhões trabalham por plataformas

Dados divulgados pelo IBGE mostram que o Brasil tinha cerca de 2 milhões de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais em 2025.

Nesse contingente estão motoristas de passageiros, entregadores de comida e produtos e outros trabalhadores que conseguem serviços por aplicativos.

Os números revelam uma característica importante desse mercado: os trabalhadores plataformizados têm jornadas maiores e, apesar de poderem apresentar rendimento mensal superior ao de outros trabalhadores comparáveis, recebem menos por hora trabalhada. A informalidade também é elevada.

Por isso, quando se fala em “quanto ganha um entregador”, é necessário algum cuidado. Não existe um salário único nem uma jornada padronizada.

E existe uma diferença ainda mais importante: faturamento não é salário.

O Mercado Livre, por exemplo, mantém o Envios Extra, sistema pelo qual motoristas recebem ofertas de percursos para distribuição de encomendas.

Antes de aceitar, o parceiro visualiza informações sobre o percurso e o valor oferecido. A empresa divulga a possibilidade de ganhos de até R$ 240 por dia. O “até” é importante: trata-se de uma possibilidade divulgada pela plataforma, e não de renda diária garantida. Para participar, há requisitos de documentação, veículo e atividade empresarial compatível. E a conta só aumenta com combustível, óleo, manutenção, telefone, internet. E existe uma despesa que não aparece imediatamente no extrato bancário: a depreciação do veículo.

parcel courier

Uma entrega de cada vez

Um dos modelos existentes é o da entrega sob demanda.

Na Lalamove, por exemplo, solicitações aparecem no aplicativo e o motorista escolhe quais deseja realizar. A empresa aceita desde motos e carros até utilitários, vans e veículos de carga.

A plataforma informa que o motorista pode selecionar apenas os pedidos que quiser, sem penalidade, e organizar os próprios horários. O valor recebido depende, entre outros fatores, da distância e dos serviços envolvidos na entrega.

Existe outro formato que merece atenção.

A Shippify trabalha com operações logísticas para empresas e oferece aos entregadores rotas previamente estruturadas, reunindo coleta e diferentes pontos de entrega.

Antes de aceitar uma delas, o motorista consegue consultar o valor oferecido, os endereços de coleta e entrega, a quantidade de etapas, o número de pacotes, a empresa ou loja atendida, o veículo necessário e até a distância até o primeiro ponto de coleta.

Na prática, o aplicativo não está oferecendo simplesmente uma entrega. Está apresentando ao motorista uma espécie de pacote de trabalho.

Uma mesma rota pode reunir várias encomendas destinadas a uma determinada região. Dependendo da operação contratada pela empresa, o veículo pode carregar produtos completamente diferentes daqueles que normalmente associamos à palavra “entrega”: compras do comércio eletrônico, bebidas, ração, alimentos e mercadorias destinadas a outros estabelecimentos. Nesse modelo, a qualidade da rota pode ser tão importante quanto o valor pago por ela.

Mas existe uma diferença entre ter liberdade para escolher quando trabalhar e conseguir a renda necessária trabalhando apenas quando deseja.

O escritório está dentro do carro

A rotina também envolve muito mais do que dirigir. É preciso acompanhar ofertas no celular, avaliar rotas, chegar ao local de retirada, conferir e organizar os volumes dentro do veículo e definir a sequência das entregas. Depois vêm trânsito, procura por estacionamento, condomínios, portarias, destinatários ausentes e endereços difíceis de localizar. O telefone vira central de operações.

Afinal, quanto ganha um entregador?

Essa continua sendo a pergunta mais difícil de responder. As plataformas trabalham com sistemas diferentes e várias delas não divulgam uma média mensal representativa de seus entregadores.

Por isso, simplesmente pegar um valor diário anunciado por uma plataforma e multiplicá-lo por 22 ou 30 dias produz uma falsa ideia de salário.

A pergunta correta não é:

“Quanto o aplicativo paga?” É:

“Quanto sobra por hora depois de pagar para trabalhar?”

Uma profissão que surgiu diante dos nossos olhos

Há poucos anos, receber uma encomenda significava esperar pelo carteiro ou pelo caminhão de uma transportadora.

Hoje, carros comuns circulam pelos bairros carregados de caixas. A atividade cresceu silenciosamente junto com nosso hábito de comprar sem sair de casa.

O Brasil descobriu a facilidade de comprar pela tela. Para que essa facilidade funcione, uma multidão passou a trabalhar do outro lado dela.

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