
Dez anos sem Vander Lee: a poesia simples que transformou o cotidiano em música
Mineiro morreu aos 50 anos e deixou canções como “Esperando Aviões”, “Românticos” e “Onde Deus Possa me Ouvir”, além de uma obra gravada por grandes nomes da música brasileira
Há artistas que permanecem pela dimensão do espetáculo. Outros ficam pela capacidade de transformar sentimentos comuns em palavras que parecem ter sido escritas para cada um de nós. Vander Lee pertencia ao segundo grupo.
Em 5 de agosto de 2016, o cantor e compositor mineiro morreu em Belo Horizonte, aos 50 anos. Dez anos depois, sua música continua circulando, sendo regravada e conquistando novos ouvintes — a ponto de 2026 estar sendo marcado por apresentações e projetos dedicados à sua memória.
Dos bares de Belo Horizonte para o Brasil
Vander Lee nasceu Vanderli Catarina, em Belo Horizonte, em 3 de março de 1966. Criado no bairro Olhos D’Água, era o filho do meio de uma família de sete irmãos.
Antes de conseguir viver da música, passou por ocupações bem diferentes dos palcos. Trabalhou como office-boy e gandula e chegou a atuar como goleiro. Mas foi nos bares de Belo Horizonte, ainda nos anos 1980, que sua trajetória artística começou efetivamente. Em 1986 gravou uma primeira fita demo com composições próprias e, no ano seguinte, já apresentava seu repertório autoral.
A projeção viria aos poucos. Vander Lee não surgiu como um fenômeno fabricado pela indústria fonográfica. Construiu público em shows, festivais e pela circulação de suas composições.
Em 1996, conquistou o segundo lugar no Festival Canta Minas com “Gente não é cor”. A partir daí, sua carreira ganhou novo impulso e suas canções começaram a chegar a intérpretes de projeção nacional.
O compositor que outros grandes artistas quiseram cantar
Talvez uma das melhores medidas da importância de Vander Lee esteja justamente em quem decidiu interpretar suas músicas.
Gal Costa, Maria Bethânia, Elza Soares, Alcione, Fagner, Elba Ramalho, Fábio Jr., Leila Pinheiro, Luiza Possi, Rita Ribeiro e Margareth Menezes estão entre os artistas que gravaram ou interpretaram sua obra. “Estrela”, por exemplo, ganhou a voz de Maria Bethânia, enquanto Gal Costa gravou “Onde Deus Possa me Ouvir”. E havia algo muito particular naquela escrita.
Vander Lee transitava entre MPB, samba, balada e rock, mas boa parte de sua identidade estava nas letras. Amor, desencontro, saudade, futebol, personagens comuns e pequenas situações do cotidiano podiam virar música. Sem precisar tornar complicado aquilo que era simples.
Esperando Aviões
Entre tantas composições, “Esperando Aviões” acabou se tornando uma espécie de cartão de visitas de Vander Lee.
Ao lado dela estão músicas que marcaram diferentes fases de sua carreira, como “Românticos”, “Onde Deus Possa me Ouvir”, “Iluminado”, “Passional”, “Estrela”, “Contra o Tempo” e “Galo e Cruzeiro”.
Esta última revela também outra característica do compositor: o humor. Mineiro, Vander Lee conseguiu colocar na música até a rivalidade entre Atlético e Cruzeiro.
Sua produção mostra justamente essa amplitude. O compositor capaz de escrever uma dolorosa canção de amor era também o cronista que observava com graça as pequenas contradições da vida.
Uma carreira interrompida aos 50 anos
Vander Lee estava em plena atividade quando morreu. Em 2016, havia sido indicado ao Prêmio da Música Brasileira, na categoria Melhor Cantor Popular, pelo álbum “#9”. Também trabalhava em um projeto comemorativo de duas décadas de carreira e, poucas semanas antes de morrer, havia realizado a gravação de um show retrospectivo. O registro seria lançado posteriormente como trabalho póstumo.
No dia 4 de agosto daquele ano, passou mal enquanto fazia hidroginástica e foi levado ao hospital. O quadro cardíaco era grave e exigiu cirurgia. Vander Lee não resistiu às complicações e morreu na manhã de 5 de agosto de 2016, no Hospital Madre Teresa, em Belo Horizonte. Tinha apenas 50 anos.
Dez anos depois
Em 2026, Vander Lee completaria 60 anos. E o ano em que se completou uma década de sua morte trouxe novas homenagens à sua obra.
Em Belo Horizonte, sua filha, a cantora Laura Catarina, apresentou o espetáculo Laura Catarina canta Vander Lee: 10 anos de saudade. Outros projetos também revisitaram seu repertório, demonstrando que a obra deixada pelo compositor continua encontrando público uma década depois de sua partida.
Ele escreveu sobre coisas enormes — amor, ausência, desejo, solidão — sem precisar torná-las maiores do que são. Encontrava poesia justamente na vida comum.
Nas músicas, nas lembranças e, vez ou outra, em alguém que continua esperando seus aviões.
Créditos do vídeo no Youtube:
Radial by The Orchard




