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MEMÓRIAS | Saudades do busão: 2206 e 5516, muito mais que linhas de ônibus

Ônibus lotados, gente pendurada na porta, a aventura dos perueiros e até um padre que pegou a linha errada. O 2206 e o 5516 ajudaram a transportar uma geração — e muitas histórias — entre o Cristina, São Benedito e Belo Horizonte.

Quem viveu no Cristina, São Benedito e região nos anos 1980 certamente tem alguma história para contar sobre eles.
Era o ano de 1981 e os primeiros moradores começavam a chegar ao anunciado “maior complexo habitacional da América Latina” daqueles tempos. O Conjunto Cristina tinha a intenção de ser a solução de moradia para muita gente que havia perdido tudo nas enchentes do início da década; para policiais militares que até então moravam em favelas (não havia o nome de aglomerado ou comunidade) e para para famílias de todo tipo que haviam se inscrito para o sorteio de uma casa na Cohab-Minas.

O 2206 e o 5516 não eram simplesmente números pintados na frente de um ônibus. Para milhares de moradores de uma região que crescia numa velocidade muito maior que sua infraestrutura, eles significavam a possibilidade de trabalhar, estudar, resolver a vida em Belo Horizonte e, no fim do dia, conseguir voltar para casa. E só entrar no ônibus já podia ser uma aventura.

O 2206 e a batalha para entrar no ônibus

No começo, a lembrança que se tem é dos ônibus do Cristina A e Cristina B. O B também atendia à demanda do Cristina C e muitas vezes chegava ao bairro já abarrotado.

E “lotado” não era força de expressão.

Ia gente até pendurada na porta. Em algumas delas, segurando até naquele tubo da descarga dos antigos ônibus, que ficava na lateral e jogava a fumaça para cima.

Hoje parece uma insanidade. E provavelmente era.

A Avenida Brasília ainda não era duplicada. A região crescia, a população aumentava e o transporte não acompanhava aquela transformação na mesma velocidade.

Décadas depois, registros históricos do sistema mostram o 2206 dividido nos ramais A, B e C. Em outubro de 1991, por exemplo, os três aparecem oficialmente denominados Conjunto Cristina A/B/C – Belo Horizonte.

Mas quem viveu aqueles primeiros anos guarda uma história que nenhuma tabela de itinerários consegue contar. Quem consegue imaginar as filas na Praça da Estação às 18h?

Quando apareceu a Kombi

A dificuldade era tamanha que muita gente começou a procurar alternativas. No início da década de 1980 começou a saga do transporte alternativo na região. Kombis faziam o serviço. Cada uma levava dez pessoas pagando o equivalente ao preço da passagem do ônibus.
E passageiro não faltava. Claro que não! Os coletivos circulavam com capacidade máxima e a viagem podia durar até 1:30h do centro até o bairro.
O problema era outro: os fiscais.
O transporte era alternativo — para usar uma expressão elegante — e trabalhar significava também ficar de olho na fiscalização. Havia fiscais ligados à empresa de ônibus da época atrás dos chamados “perueiros”, e o relacionamento estava muito longe de ser amistoso. Às vezes, além de passageiro, corria o motorista.

E tinha o 5516

Se o 2206 ficou marcado pela ligação cotidiana com Belo Horizonte, o 5516 ocupa outro lugar na memória de muita gente.
Era uma linha fundamental para trabalhadores da região.
Registros históricos apontam que o 5516 surgiu em 1985, operado pela Expresso Luziense, a partir de um ramal do próprio 2206, num período de reorganização do transporte após a conclusão da Avenida Cristiano Machado. A linha permaneceu no antigo sistema até 2008.
Mas havia algo especialmente importante em seus atendimentos: o 5516 aproximava aquela população também dos grandes corredores de trabalho da Região Metropolitana. Na lembrança de muitos está o ônibus que atravessava o Anel Rodoviário e levava passageiros em direção à Cidade Industrial.
Para quem precisava trabalhar naquela região, aquilo representava muito mais que uma linha de ônibus. Era emprego ficando um pouco mais perto de casa, e menos tempo no desconforto da viagem em pé.

Até que um padre pegou o 2206 errado…

E talvez nenhuma história mostre tão bem o lugar que esses ônibus ocuparam na formação daquela região quanto a de um passageiro que simplesmente entrou no ônibus errado.

O relato é preservado pela própria Paróquia Santíssima Trindade, de Santa Luzia.

O jesuíta padre Ulpiano Vasquez pretendia ir para Justinópolis. Em algum momento da viagem, embarcou no 2206.

Só havia um pequeno problema: o 2206 não o levaria para Justinópolis.

O padre foi parar no Cristina.

Ali encontrou uma região em formação e uma comunidade que também começava a nascer: a Comunidade Nossa Senhora da Paz. Segundo a história registrada pela paróquia, aquele ônibus tomado por engano marcou o início da aproximação dos jesuítas com as comunidades do Cristina e Palmital. Anos depois, em março de 2001, a rede dessas comunidades seria confiada à Companhia de Jesus. É difícil imaginar um erro de itinerário mais bem-sucedido.

Os ônibus passavam. O bairro estava crescendo.

Enquanto 2206 e 5516 subiam e desciam carregados de passageiros, Cristina, Palmital e São Benedito estavam construindo sua própria história. E todos nós estávamos dentro dela. Alguns espremidos no corredor, outros pendurados na porta. Alguns trabalhando longe e dependendo do precário transporte público.

Outros dividindo espaço com dez pessoas dentro de uma Kombi e tentando chegar à Praça da Estação — e sair de lá — antes que aparecesse fiscalização, assumindo os riscos de um transporte clandestino. Hoje os números mudaram, os ônibus mudaram, as avenidas mudaram e aquela região é outra. Mas experimente mostrar uma fotografia de um velho 2206 ou 5516 para quem viveu aqueles tempos. É bem provável que, antes mesmo de falar do ônibus, a pessoa comece a contar uma história.

E você? Pegou o 2206 ou o 5516? Foi passageiro de alguma das Kombis que faziam transporte alternativo naquela época? Conte sua história. Quem sabe ela não vira o próximo capítulo das nossas Memórias?

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